Quando se aproxima a comemoração do Dia Mundial do Teatro, a Editorial Caminho sugere seis obras, com diferentes temáticas, para uma linguagem comum. Seis espaços de representação a partir de textos de autores portugueses para adultos, crianças e jovens.
Partindo da ópera de Mozart Don Giovanni ou O Dissoluto Punido em que Don Giovanni é condenado aos infernos por ter seduzido 2065 mulheres, José Saramago, em Don Giovanni ou O dissoluto absolvido reanaliza o mito: será Don Giovanni culpado? E o Comendador, e Dona Ana, e Dona Elvira, e Don Octávio? Serão um modelo de virtudes? Onde está a culpa? Onde está a virtude? Onde está a hipocrisia?
Diogo (o filho) e Luísa (a mãe) introduzem-nos no seu mundo muito próprio através de uma permuta de confidências para a qual, enquanto leitores, somos solicitados. Diogo nasce. Diogo cresce. Luísa observa-o, em permanente sobressalto. Diogo é diferente. Nas atitudes, nos gostos, na sensibilidade, nas amizades que procura. Sente-se perdido. Não pertence a nenhum lugar. Não se «identifica». Luísa apercebe-se do sofrimento e dos permanentes conflitos íntimos do filho. Mas tem relutância em admitir aquilo que, afinal, sabe. Sempre soube. O instinto de protecção que desenvolve cada vez com mais intensidade resulta num mundo a dois, isolado do restante núcleo familiar. Um mundo que ambos partilham e percorrem numa autêntica via dolorosa. No diálogo franco e livre que sempre mantiveram, só tardiamente as palavras cruamente descodificadoras de tanta amargura aconteceram (Mãe, sou homossexual). Diogo, que fazer quando nos sentimos diferentes? Luísa, como gerir a tua frustração, a dor infinita que te consome ao tomares consciência de que este filho tão amado não te dará nunca os netos que adorarias ter, e que cultural e socialmente sabes representarem o paradigma da continuidade da família? Será suficiente a tua quase inesgotável capacidade de compreensão, de paciência, de amor? Ler estas páginas é apreender uma experiência duríssima. É reflectir profundamente sobre "o outro". Porque ser diferente não é uma questão de escolha. Vagabundos de Nós aborda o que de melhor e de pior há em cada ser humano, deixando em aberto as pistas para a problemática da condição de não haver escolha. Basta, com a humildade que dignifica, querer seguir essas pistas.
Na sua primeira colectânea de teatro, Mário de Carvalho quis escrever peças que fossem o «reflexo» do Portugal pós-revolucionário. Nelas traça as desventuras de uma geração que, passado o entusiasmo da Revolução, constata com amargura a distância que separa as esperanças por ela suscitadas da realidade. Para dizer esse desencanto português, que ecoa o declínio dos ideais no mundo, o autor adoptou uma dramaturgia próxima do «Teatro do Quotidiano». Recusando a idealização (tanto formal como ideológica), oferece assim uma representação voluntariamente prosaica — talvez até paródica — da sociedade portuguesa, enredada nas suas contradições, e denuncia a imutabilidade dos seres e dos tempos, imediatamente sugerida pelo título.
Espaço cénico: uma clareira de jardim. Na primeira parte da acção recria-se um ambiente de estação morta. As tonalidades de Outono correspondem ao cair da folha; o vento arrasta pelo chão do parque folhas ressequidas de várias cores e formas. É tempo de desperdício. Na segunda parte da acção reaparece um ambiente de Primavera; vive-se o momento da floração; pairam no ar indícios de despertar; ouve-se o canto dos pássaros. É tempo de necessidade.
Livro recomendado pelo Serviço de Apoio à Leitura do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas
Imagina que a tua sombra descola dos teus pés e vai à vida. Que situação mais desagradável para ti, sem sombra por companhia. Mas, tempos depois, ela volta. Ganhou corpo e propõe-te um contrato escandaloso. Estarias tu na disposição de trocar de papéis com ela, para passares a ser tu a sombra da tua antiga sombra? Ainda por cima, arrebata-te a tua paixão secreta. Ai que isto não fica assim! Está-se mesmo a ver que vai tudo acabar em duelo e dos renhidos...