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O OUTRO PÉ DA SEREIA

A segunda pré-publicação que apresentamos traz ao público um excerto do Primeiro Capítulo  do novo romance de Mia Couto, O Outro Pé da Sereia, com data de edição a 11 de Maio de 2006.

Mia Couto nasceu na Beira, Moçambique, em 1955. Foi director da Agência de Informação de Moçambique, da revista Tempo e do jornal Notícias de Maputo.

Tornou-se nestes últimos anos um dos ficcionistas mais conhecidos das literaturas de língua portuguesa. O seu trabalho sobre a língua permite-lhe obter uma grande expressividade, por meio da qual comunica aos leitores todo o drama da vida em Moçambique após a independência. Os seus livros estão traduzidos nomeadamente em francês, inglês, alemão, italiano e espanhol.



Capítulo um

 

A estrela enterrada

 

 Moçambique, Dezembro de 2002


 

Em todo o mundo é assim: morrem as pessoas, fica a História.
Aqui, é o inverso: morre apenas a História, os mortos não se vão.

(O Barbeiro de Vila Longe)


 

 

 — Acabei de enterrar uma estrela!

 Foi assim que o pastor Zero Madzero se anunciou junto à cama de sua esposa, Mwadia Malunga. Lá fora, espreitavam os primeiros sinais de luz. A mulher, ainda emergindo do sono, sorriu e disse:

 — Venha, marido, venha que eu lhe apronto um bom banho.

 Olhou o homem em contraluz: parecia um fantasma, magro e sujo, carregando mais poeira que o vento do Norte.
Um cheiro a queimado se espalhou na ensonada claridade do quarto.

 — Trouxe os burros?

 Ele acenou com a cabeça, como se estivesse bêbado. Quando Mwadia se aprontava para o encaminhar por entre as penumbras, o pastor deu um passo atrás e murmurou:

 — Não me toque! Não me toque que tenho as mãos em fogo.

 Só então a esposa reparou no brilho que emanava das mãos fechadas de Madzero. Lentamente, ele entreabriu os dedos, um por um, como se desfolhasse uma flor. Mwadia Malunga levou o braço ao rosto, incapaz de enfrentar a reverberação. A sua voz esgueirou-se num gemido:

 — Meu marido, me confesse: você já morreu?

 — Não, tudo isto vem da estrela, mulher.

 — Mas qual estrela?

 — A estrela que enterrei no nosso quintal.

 Mwadia espreitou, receosa, pela janela. O amanhecer costumava ser um beijo no vidro de sua casa. Naquela manhã, porém, a luz era mais tensa que intensa. Foi então que ela viu a pá, espetada junto a um amontoado de areia.
Enterrada na vertical, cumpria o serviço de cruz em campa rasa.

 Saiu para o pátio, o marido seguindo-a em passos sonâmbulos. Em redor do tambor de água, ela juntou umas tantas latas enquanto o homem se ia despindo. Tinha sido sempre assim: o pastor recusava banhar-se sozinho. Um homem fica menos macho se passeia as mãos pelo seu próprio corpo. Era essa a crença de Zero Madzero. A esposa fazia de conta que acreditava.

 Desta vez, como sempre acontecia, manchas de sangue iriam sujar a água que restava do banho. Ela nunca lhe perguntou porquê. A um homem não se perguntam certas coisas. Também ela, quando saltava a lua e lhe vinham os sangues, gostava de ser guardada em silêncio. Uma esteira diferente à entrada da porta: era o que bastava para Zero saber que esses eram dias interditos.

 

***

 

 — Não gaste muita água, pediu Zero.

 Mwadia sentiu os riscos abertos no pescoço do marido. Dizia-se que eram antigas cicatrizes de golpes de faca, de certa vez que quase o mataram. O pastor defendia que eram guelras, que metade da sua alma era de peixe e ele, quando dormia, descia às profundezas do rio e se embalava na corrente.

 — Tem a certeza que não estava viva?

 — Quem?

 — A estrela.

 — Estava morta. Quando tombou do céu, já vinha despedaçada.

 O que restou, disse ele, era pouco menos que uns montes de lata incandescente. Uma lata voadora?, se admirou Mwadia. O pastor Madzero descreveu o mutilado corpo celeste: uns ferros brilhantes, mais amolgados que sucata tombada de uma desconstelação.

 — Você tocou na estrela?

 — Toquei, fiz mal.

 — Mas porquê não resistiu, marido? Vê como não posso confiar em si?

 — Eu queria aproveitar aqueles ferros, fazer um portão para o curral.

 Ali estava a explicação. Não podia ser senão um castigo pela pretensão do burriqueiro em se apropriar de uma criatura celestial. As mãos se impregnaram de cintilações, dessas luzes que acendem os astros no fundo da noite.

 — Me conte, meu marido. Conte tudo que lhe darei um banho de desencardir a alma.

 

***

 

 Enquanto se deixava banhar, sob as demoradas carícias de sua esposa, o pastor Madzero não podia saber que longe, mais longe que o outro lado do mundo, uma mão nervosa viria a redigir a seguinte mensagem:

 

Comunicação interna, urgente

 

 Um aparelho de espionagem usado pelos nossos serviços secretos desapareceu esta noite, algures no Norte de Moçambique. A aeronave não pilotada poderá ter sido abatida, o que confirma a suspeita de que forças terroristas estão actuando nessa região de África. A aeronave cumpria uma missão de reconhecimento militar quando, inesperadamente, se interrompeu o contacto com a base de apoio, localizada num porta-aviões estacionado no oceano Índico. Forças de segurança terrestres poderão ser enviadas para o território onde aconteceu o acidente para confirmar o destino do aparelho e as causas do seu desabamento. Desde os atentados do Quénia e Dar-es-Salaam que os nossos serviços de segurança mantêm a região sob estreita vigilância.

 

***

 

 A melhor maneira de fugir é ficar parado. Lição que o burriqueiro Zero Madzero aprendera com a imbabala, a ga­zela dos matos densos. É a fuga da presa que engrandece o caçador. O ficar imóvel é o mais astuto modo de ­enfrentar o predador: deixar de ter dimensão, converter-se em areia no deserto. Desaparecer para fazer o outro se extinguir.

 A melhor maneira de mentir é ficar calado. Lição que o burriqueiro não aprendera com ninguém. O silêncio não é ausência da fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra. Por isso, Madzero só falou quando a esposa deixou de lhe pedir para contar a história do astro. Enquanto Mwadia lhe enxugava o corpo, o burriqueiro relatou as extraordinárias sucedências que a ele pareciam singelas, mas que iriam mudar o destino do seu lugar e da sua gente.

 

***

 

 As lágrimas de Mwadia, ao escutar o relato de seu marido, não resultavam do que ele ia dizendo. Comovia-a, sim, o simples facto de Zero Madzero falar. Desde há anos que a sua voz se tornara tão episódica como se ele estivesse existindo por conta de um outro que já vivera. O homem calava cobras e lagartos. No silêncio, Zero se embalava, feito um pêndulo, pontual para lá e para cá.

 — Estou a esquecer-me.

 E oscilava como água na onda. A kapunda, essa túnica de algodão branco, sobrava-lhe nos ombros. A mulher suportava mal esse lento silenciar e, mais e mais vezes, o espicaçava para as falas:

 — Então, marido, já não fala?

 — Estou à procura das palavras...

 Demorava-se, olhos rebuliçosos, à cata dos termos. No esforço, ele contava pelos dedos, como se palavra e algarismo se misturassem, informes, nos obscuros lamaçais de seu pensar. A esposa foi confirmando: o marido estava sendo atingido por uma estranha cegueira. Ele era invisual para palavras. Preocupada, ainda pensou: farei com que se alimente melhor. Quem come pouco, fala pouco. O ­prato encheu-se, não se encheram as falas. Zero se aproximava do próprio nome: ele se anulava, em ocaso de si mesmo.

 Rosto velado, Mwadia torceu o pano com que lavava o marido e se deixou possuir pelo doce sabor do pranto. Só então ela prestou atenção ao que o marido contava, o surpreendente relato de ocorrências que iriam mudar o seu destino.

 

***

 

 Naquela noite, como em todas as outras, Zero Madzero saíra para levar os burros e os cabritos a pastar. Preferia pastorear os seus bichos quando estava mais fresco e lá, ao longe, a fogueira da sua casa lhe indicava o único caminho em todo o universo. Devia ser quase madrugada quando ele olhou o firmamento como quem, na cidade, consulta o relógio. Eram horas de encaminhar os animais de volta a casa. Seus olhos ganharam brilho num silencioso agradecimento: só é olhado pelo céu quem olha para as estrelas. Nem o burriqueiro sabia o quanto, nos próximos tempos, ele seria contemplado pelos céus.

 Apoiou-se no pau bifurcado que ele esculpira para que as cabras dessem à luz, em igual número, machos e fêmeas. O brilho em seu rosto era a única cintilância na aridez da paisagem. Naquelas esqueléticas paragens só chove quando os joelhos dos bois tocam o chão, as mulheres cantam e os homens rezam. Mas fazia tempo que não havia bois, há muito que as mulheres tinham emudecido e os homens perdido a crença.

 Todavia, aquele lugar nem sempre fora um território isolado, longe do mundo, do outro lado do tempo. Há trinta anos — quando Zero Madzero nascera — ali se espraiavam as chamadas mphalas verdes, as férteis colinas dos montes Camuendje. Converteram-se numa ilha esquecida quando se encheu a albufeira da barragem de Cahora Bassa. O Zambeze inchou e os riachos de Nkazi e Muzenguezi coalesceram, sepultando vales e terras baixas. Quando as águas subiram, os mais-velhos sorriram, satisfeitos. A Bíblia também está a ser escrita na nossa terra, diziam. Mas depois a inundação conteve-se e sobraram montes, cabeços e outeiros.

 — Nem o dilúvio merecemos, resmungavam os velhos.

 Nascemos para ser escolhidos, vivemos para escolher. Podia-se dizer de Madzero que era tonto mas, ao menos, ele escolhera viver nesse lugar de que se esqueceram os caminhos. Há anos que ele quase não cruzava com alma vivente. A única pessoa de seu convívio era Mwadia, essa que tinha corpo de rio e nome de canoa.

 E era para reencontrar a sua esposa que o pastor agora apressava o passo. Queria regressar antes que fosse manhã. A última coruja já havia pousado, sinal de que a noite estava prestes a desvanecer-se. Daí a pouco, a esposa estaria despertando. O burriqueiro anteviu os grandes olhos da mulher e a savana se encheu de luminações como um pestanejar dos céus.

 — Vou no caminho de ser Deus.

 Arrependeu-se da ousadia do pensamento. Na igreja lhe ensinaram que Deus só é se é único, mais que único. Ele que apagasse a multidão de deuses familiares, essas divindades africanas que teimavam em lhe povoar a cabeça. Madzero era um «postori». Noutras palavras, ele era um crente da Igreja Apostólica, criada por John Marange em 1930. Não seria exactamente um caso de fé, pois o juízo de Zero não aguentava nem metade de crença. Ele aderira aos «vapostori» apenas porque, para ele, o nome soava como um aportuguesamento da palavra pastores e não de apóstolos. A seita seria onde os pastores pobres como ele se reuniriam e evocariam o dia em que o planeta inteiro se converteria numa reverdejante paisagem.
 Nos tempos de hoje, pouco restava da agremiação religiosa. Todavia, o burriqueiro mantinha-se um seguidor dos preceitos do finado Marange. Assim, até na doutrina ele se revelava bem distinto da maioria que frequentava a Igreja Católica. Madzero não era apenas diferente: ele gostava dessa diferença, trazia-a ao peito como se de uma medalha se tratasse. Cabelo sempre rapado, não bebia álcool, não fazia uso dos tambores nem das mbiras para convocar os espíritos.
 Enquanto apressava o regresso a casa, Zero Madzero ergueu os olhos para a noite como se nela procurasse chão. De repente, o pastor se arrepiou: um ruidoso fogo rasgou os céus como um chicote de luz. Parecia um fósforo a ser aceso pelas mãos de Deus. Depois, foi a explosão. Madzero se apeou da alma, tal o susto. Parecia que o universo todo se estilhaçara. Sem pisar nem pesar, o pastor se ajoelhou. Seus lábios imploraram:

 — Me salve, Deus! E acrescentou, em célere sussurro: E me acudam os meus deuses, também...

 Fosse há uma dezena de anos e o pastor estaria seguro de que se tratava de um acto de guerra. Mas, agora, era impossível. A guerra era coisa do passado e o tempo varrera as cinzas e lavara as lembranças.

 Decorreram viscosos instantes, enquanto o mundo reganhou ordem e silêncio. O burriqueiro viu, longe, uma silhueta ainda incandescente, afocinhada nas areias. E concluiu tratar-se de uma estrela-cadente. Ela se despenhara ali, com propósitos que se iriam ainda descortinar.

 Acto descontínuo, assim que a poeira assentou, Zero Madzero foi ver dos burros e cabritos, seus únicos valores. Espreitou os graus do horizonte e os degraus do céu. Os cabritos não demoraram a despontar. Mas os jumentos nem vê-los. Tudo desarreado, cascos empoeirados, desapeados pelos vãos.

 Só depois de muito chamamento é que os burros assomaram entre brumas e fumos, aproximando-se em passo resignado e com olhos de obediente tristeza. Por fim, estavam todos, completos, jumentos e caprinos. Os asnos, inquietos, agitavam as orelhas. Os cabritos, como sempre, caminhavam imperturbáveis. Cabrito é bicho que já viu o fim do mundo. Nada o surpreende.

 Cambaleando na areia, o pastor se aproximou da ­estrela. O corpo celeste estava desfigurado, todo amassado, ainda chamuscando em fugazes labaredas. Zero se admirou do tamanho. Por certo era uma estrela em idade infantil, dessas que ainda tropeçam nos atalhos do firmamento. Tombara mesmo nas traseiras da casa, por pouco não acertara no tecto. Madzero, primeiro, levantou os braços a mostrar que não tinha culpa no acidente. Pobre como era, seria o único a receber punição. Permaneceu assim, de mãos erguidas, até estar certo de que não havia testemunha. Depois, cumpriu deveres de fé: cobriu a pobre defunta com umas pazadas de terra, balbuciando umas ininteligíveis palavras de encomenda a Deus.

 Antes de entrar em casa ainda espreitou o céu. Seria aquela apenas a primeira de um chuvisco de estrelas? A savana iria sofrer uma inundação de luz, enchente de astros desamparados?

 

***

 

 — Foi então assim?

 — Foi, mulher. Sem tirar nem opor.

 — Pois eu lhe digo, marido: temos que desenterrar essa estrela decadente.

 — Porquê?

 — No nosso quintal só os nossos é que plantamos, só os nossos de carne e osso.

 O casal decidiu que, nesse mesmo dia, transladaria os restos imortais do corpo celeste. E os enterraria junto ao rio, no lugar do sagrado bosque. É lá que se sepultam as crianças.

 Antes, porém, consultariam o curandeiro Lázaro Vivo. Não que essa consulta fosse do agrado de Mwadia, que ela não dava créditos àquilo que chamava de crendices. Nem Zero, se fosse coerente com os mandamentos dos vapostori, se prestaria a tais consultas. Quando olhou a sombra nos olhos do marido, Mwadia entendeu que aquele não era o momento para lhe requerer coerências.
 Aliás, desde os tempos da Revolução que o velho Lázaro Vivo deixara de se apresentar como um nyanga. Ele era, agora, um conselheiro tradicional. Fosse qual fosse a sua oficial designação, o adivinho lhes daria a necessária permissão para entrar na floresta. Só isso, agora, importava.


 

(O Outro Pé da Sereia, Editorial Caminho, Lisboa, 2006, pp. 16-25)


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