O Dia Mundial da Poesia foi proclamado pela UNESCO na sua 30.ª sessão, realizada em Paris nos meses de Outubro-Novembro de 1999. Das deliberações tomadas ressaltam as seguintes linhas orientadoras:
i) introduzir a poesia como parte integrante da educação artística no ensino; ii) despertar nas escolas a consciência da importância de celebrar o Dia Mundial da Poesia, de forma interdisciplinar; iii) encorajar a atribuição de prémios de poesia; iv) mobilizar as autoridades competentes para que contribuam activamente na preparação e celebração desta data; v) promover a criação de uma rede de prémios em cada Estado-Membro; vi) elaborar uma lista de instituições ligadas à Poesia nos diferentes Estados-Membro.
A Editorial Caminho associa-se a esta comemoração, oferecendo-lhe um poema do livro Migrações do Fogo, de Manuel Gusmão, e algumas sugestões:
Havia séculos e eram florestas sobre florestas escritas. O canto cantava: era o incêndio do vento
folheando a memória da terra
essa maranha de raízes aéreas que nasciam enterrando mais fundo as árvores anteriores; essa teia nocturna de troncos e lianas, de ramos e folhas, nervuras que os versos enervam irrespiráveis; esse mapa em relevo lavrado pela paciência da luz que atrasando-se recorta estas estranhas esculturas do tempo: os poemas selvagens
o máximo excesso de uma rosa aquática e frágil sempre a nascer desfiladeiros e falésias, fendas, quebradas, ravinas vulcões que deflagram em écrans sucessivos
Havia séculos e o cinema dos astros acendia ampolas e bagas, campânulas, cápsulas, lâmpadas; punha em música a infinita noite dos versos que longamente escutam aqueles que muito antes ou muito depois vieram ou virão até estes anfiteatros que os desertos invadem.
Havia séculos e / atravessando as ruínas dessa terra quente, as páginas de água dessa rosa alucinada / havia esse: o comum de nós que dos seus se dividindo, verso a verso, procura ainda alguém. E assim era de novo o início.
A grande migração das imagens — havia séculos — desde há muito começara, desde sempre, já. E sem cessar migrávamos nós, inquietos e perdidos
sem paz e sem lei, sem amos nem destino.
(Migrações do Fogo, Editorial Caminho, Lisboa, 2004)