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16-Mar-2007
Sessão de Lançamento de Manual Para Amantes Desesperados, de Paula Tavares - Texto de José Luandino Vieira

A Editorial Caminho publica neste espaço o texto de José Luandino Vieira, lido pelo autor na sessão de apresentação do livro Manual Para Amantes Desesperados.

Confissão de Amante Desesperado (*)

To Always Birdie

Sou um amante desesperado.

Estou perdido nos labirintos dos sentimentos e ainda a vida não me deu a sabedoria do marquês de Valmont, não alcanço a dignidade de ter sempre — por mínimo que seja! — um orgulho a defender, saber devorar o ressentimento, estrangular o ciúme e oferecer em troca uma doce ternura mesmo com o coração a explodir de raiva.
Por enquanto vagueio, flano, sou a presa paranóica de meu sombrio coração, de meu desatado sangue...
É assim que me descubro, de repente, no espelho da montra de uma livraria e, narciso, vejo, revejo e não aceito meu rosto desfeito, disforme, desconhecido... Este sou eu? Eu, homem, macho, senhor?
Responde-me meu sangue desatado, oiço seu escorrido ódio, baixo os olhos. E por isso vejo quem me olha do fundo de mim mesmo, ali: os livros. Este livro!
Brilha na luz escura e apagada da montra. Não é, porém, uma luz que me ilumine, não é um lume que me serene, platónico vaga-lume na escuridão da verdade — é uma luz que me cega!

Um Manual?

Descortino, primeiro, um nome: Ana Paula Tavares.
Nada me diz, o nome. Um amante desesperado não ouve sua memória, está em permanente nascimento no nada, do nada para o nada... Meu coração está encurralado em si mesmo, para si mesmo — surdo, cego, mudo, insosso, inábil...

* * *

Sou um amante desesperado...

Não sei que naqueles idos de 80, em Luanda, Angola, teve uma erupção, um abalo de baixa intensidade e consequências imprevisíveis na poesia angolana que vinha vindo, disciplinada e cabisalta. A sempre adiada questão de género escapou-se pelas fracturas dessa erupção. A descolonização também nessa poesia de fardas e botas — de um nós, a mulher angolana em seu heróico e constrangente condicionalismo histórico (a luta de libertação nacional para a independência) ergue-se o Eu, angolana mulher. Conquistado o estatuto de angolana, reivindica-se esse estranho estatuto para os ouvidos do homem: mulher.

Sou um amante desesperado e em meu sangue corroído não navegam nem a generosidade nem a compreensão...
Tenho medo!
Tenho medo porque o modo de estar é o grito!
Não o sussurro de garganta apertada, ameaçada;
Ou o cicio dos lábios receosos, mordidos;
Menos o berro das ideias torturadas no cérebro;
O grito, o que vem das entranhas, de todo o Ser.
Que exige actor e dramaturgia e palco — o corpo, o erotismo, Angola — terra mátria em seu cenário sulenho de bois e vastas distâncias entre montanhas e pastores, colinas e leite azedo...
Onde o sujeito, agora, e feminino, se impõe pelo contacto — sem trabalho de casa, e lavra, e curral e cerca... Que, se determina e desenha e potencia uma imagética, potencia e perpetua também uma subalternidade...

Mas eu, amante desesperado nos escuros corredores de meu sangue contaminado, perdido, não me acho. Porque não sei que pela poesia, pela voz poética, pelo grito poético — os sinais exteriores de sua secular dependência (casa, cama, curral, por exemplos mínimos), se podem fazer desalienação, libertação...

Eu, amante desesperado, perdido em minha noite, nunca mais aprendo que esse grito poético se apropria desses sinais pelo erotismo. E que esses sinais quotidianos — mungir, pilar, semear, coitar, mondar, parir... — se erigem em voz poética própria; e que o caminho de esse grito (o poema, em concreto) se alça à poesia, via de liberdade estética, a mais profunda, a que representa a libertação maior: a da sua condição de objecto, não ainda à plena realização como sujeito; apenas — e é tanto! — e para já, a inscrição na poesia angolana, desse caminho

do silêncio ao grito;
do corpo-objecto explorado ao corpo
— sujeito assumido;

Mesmo que mulher-real e mulher-poética se definam ainda, e cito:

«Com um lugar vazio para a alma»

Também eu, amante desesperado e de alma vazia, e magoada pela liberdade de quem me magoou na assunção de uma liberdade própria, e não a que lhe queria outorgar, percebo enfim!
Mas teria que pedir permissão a Ana Paula Tavares, que ainda não conheço, para emendar. E propor que

«Com um lugar vazio...» fosse um lugar vago.

Porque aquele lugar o foi a poetisa ocupando pacientemente, celebraticamente, em sua límpida poesia: a que traz a alma que falta, a alma que é necessário incluir, a da expressa e assumida plenitude da mulher angolana! Sem a qual a nação nunca estará completa.

***

Mas eu, desesperado amante, presa da minha irracional, prosaica fúria, apenas ouvindo o surdo bater do sangue derrotado pela liberdade de quem o acendeu, não sei o que seja a poesia.
Porque pela luz negra, pela fragilidade compacta, pelo discreto estar ali, quase em desculpa e licença, na montra, suponho que de poesia é o livro!
E eu queria um manual, uma ajuda concreta, real, científica, pragmática, prática, útil...
Pobre amante desesperado que não sabe que a poesia é esse reino (me desculpe o plágio inconsciente meu mais-velho don Octavio!) onde nomear é ser!
E que Ana Paula Tavares é súbdita desse reino utópico, real, o reino da poesia. Um reino em que a noite reina, é escura, mas não vazia...

Porque eu, amante desesperado, não sei ouvir meu sangue, não sei entender sua música desafinada pelo ciúme, cheirar o súbito brotar do clarão escuro que jorrará da selvajaria dos actos dos meus sentidos descontrolados, não sei o que é a poesia!

Eu, amante desesperado, em minha selvática irracionalidade de racionalista, desconsigo de alcançar o estado poético, estou preso à ditadura dos meus sentidos, ao negrume dos meus sentimentos contraditórios, à terrível PROSA de minha herança de macho, senhor, patrão, dono...
Saberia talvez, quem sabe? — que a poesia é um estádio superior de desenvolvimento humano e que sua terrível e assustadora finalidade é essa — colocar o homem em estado poético.

***

Entrei na livraria.
Tenho, agora, o livro na mão.
No Manual quero encontrar a via para quê?
Vingança de sentidos e sentimentos? Expiação?
Acusação?
Miro a capa. Em minha ignorância de amante desesperado não sei que, nela, estão inscritos símbolos de um povo que não é o povo originário da arte poética de Ana Paula Tavares, tão do Sul; e outros símbolos que eu, amante desesperado presa do meu furibundo ciúme máchico, primitivo, animal, só leio falicamente, vulvicamente...
Se abrir o livro, como faço agora, leio:

«Um cesto faz-se de muitos fios.»

Como se faz também o desespero de um amante permanente.
Então eu, o pobre animal desesperado, começo a sentir cansaço de meu próprio desespero redundante.
Seguro o livro, inseguro;
Abro-o, trémulo;
Vasculho suas páginas, bruto;
Leio, tosco:

«Devia olhar o rei...»

Perplexo, atónito, fulminado, mais desesperado, percebo tudo numa iluminação — Ana Paula Tavares; a poesia; este livro. Mais!: percebo o que é o meu desespero de amante desesperado:

Eu era o rei,
e ela preferiu o escravo!

Em minha natureza de macho nunca o poderia aceitar. Teria que me erguer — pelo estado poético — à minha segunda natureza: a de simples ser humano.
Uma transcendência fugaz.

***

De repente, não mais que de repente, desaparece
Adensou-se minha ignorância, cresceu o mistério,
desvaneceu-se meu estado poético.
Regresso à minha triste condição histórica, ao desespero do amor, à prosaicidade da vida: Não Sou Poeta.
Mas sempre que em meu caminhar do ventre da mãe ao ventre da terra, minha única rota e rumo, e este desespero me agarre de novo o coração, posso reler vezes sem conta, este livro.

E a cada nova leitura, num fugaz momento de transcendência, minha alma voltará a ser salva.

Mahezu!

Lisboa, 14 de Março de 2007

(*) José Luandino Vieira, texto de apresentação ao livro Manual para Amantes Desesperados (Editorial Caminho, Lisboa, 2007) de Ana Paula Tavares.

Sobre o(a) autor(a) Ana Paula Tavares; José Luandino Vieira
Sobre a obra Manual Para Amantes Desesperados

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