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Um Espelho Só Meu
Ana Saldanha

Um Espelho Só Meu
Na véspera do seu aniversário, a Clara quer ir à discoteca. Mas o pai da Clara é muito severo e a madrasta é uma vaidosa que só pensa em si própria. O que vale à Clara é a sua amiga Inês. Com uma mentirinha sem importância e a roupa nova que lhe deu a madrinha, a Clara vai passar uma noite inesquecível.

 
Género(s): Infantil-Juvenil
Acabamento: brochado
Dimensão: 13,5x21 cm
Páginas: 110
Peso: 129 g
Colecção: «Era Uma Vez... Outra Vez», n.º 1
Código: 100.001
ISBN: 972-21-1513-8
1.ª edição: Novembro 2002
Preço: 7,35 €


Índice de conteúdos

1.  Sempre a mesma coisa
2.  Cinzas
3.  Meu amoor
4.  Fogo, fogo, fogo!
5.  O sábado do costume
6.  À caça
7.  Gémeas
8.  Final: Ondas e marés
9.  Final alternativo: A chover lá fora


Excerto da obra

      «— Também! É sempre a mesma coisa! Sempre o mesmo! Nunca me fazes as vontades.
      A Clara encolhe as pernas e encosta os joelhos à porta do carro. Sentada de lado, apoia a testa no vidro e olha lá para fora. Fim da tarde, e sexta-feira ainda por cima. Carros por todo o lado, estacionados em fila dupla, por cima dos passeios; a tentarem entrar nas várias correntes de trânsito, caudalosas como o rio que acabaram de atravessar.
      — Este cruzamento de Santa Cruz é um verdadeiro pandemónio — queixa-se o Gonçalo. — Ainda por cima, estes semáforos são dos que demoram imenso tempo a mudar para verde.
      — Não desvies a conversa — diz a Clara, sem olhar para o pai.
      O Gonçalo trava e mete o ponto morto.
      — Parece que tens razão de queixa — diz. — Até parece que tens razão de queixa!
      O Saab velho do Gonçalo, a "banheira" como ele lhe chama, é o terceiro na fila de trânsito para virar à esquerda. Ao lado, num Mercedes cinzento metalizado de dois lugares, o condutor, sozinho no carro, sonda uma narina com o indicador muito empertigado, enquanto fala, sério e sem gestos, quase sem mexer os lábios.
      — Achas que tens razão de queixa? — insiste o Gonçalo. — Gostava de saber que razão de queixa é que tu tens.
      O condutor do Mercedes enfia agora o dedo num dos ouvidos e a Clara olha fixamente para ele. Ele não se sente observado.
      — Então? — diz o Gonçalo. — Agora não falas? Amuaste?
      — As minhas amigas todas — diz por fim a Clara, deixando de olhar para o condutor do carro ao lado — fartam-se de sair à noite. A Inês sai à noite. Algumas até só vêm para casa de manhã. Só eu é que tenho de ficar sempre em casa. Parece...
      — Vêm para casa de manhã?!
      O Gonçalo olha para a filha: cabelo negro como a moldura da janela onde encosta a cabeça, pele de neve ao sol do meio-dia, de uma brancura cheia de luz; os lábios: uma ferida sangrenta. Está cada vez mais parecida com a mãe.
      — Mas não sais a ela na personalidade. A tua mãe não era assim. E de certeza que não gostava que tu fosses assim.
      Com o queixo metido no decote da camisola, a Clara olha de novo para o condutor do Mercedes. Ele acendeu um cigarro e fala agora com mais animação. Deve ter um daqueles telemóveis como o do pai da Inês.
      — E tu tens amigas... — insiste o Gonçalo —, as meninas com quem acompanhas... elas vêm para casa de manhã? Ó Clara! Ó Clara! Francamente!
O que é que a tua mãe diria?
      — Não é isso, papá! Não me entendeste.
      A Clara ergue o braço até à boca e trinca mais um fio do punho da camisola.
      — Então o que é?
      — Eu não estou a dizer que me deixes vir de manhã para casa — explica a Clara, enquanto continua a desfiar com as unhas, pérolas pálidas e perfeitas, o bico rendado do punho da camisola. — Era só para tu veres que eu não estou a pedir-te nada do outro mundo. Deixas? Deixas-me ir amanhã? Anda lá! São os meus anos no domingo.
      — Não insistas, Clara. Eu já te disse que não. Tu, um dia, vais compreender que o que eu faço é só para o teu bem.
      — Oh!
      — Oh, não, Clarinha! Oh, não! É para o teu bem.
      O Gonçalo flecte os dedos grossos e fortes. Mãos de violoncelista. A ideia de que os instrumentistas têm mãos longas e finas é falsa, diz ele. Para tocar piano, para tocar violino ou violoncelo, querem-se mãos musculadas, cheias de força; mãos de trabalho. A mãe da Clara tinha as pontas dos dedos rombas e achatadas, mesmo próprias para o violino.
      — Custa-me mais a mim do que a ti, acredita — está a dizer o Gonçalo.
      — Conta-me outra — diz a Clara ao fim de uns momentos —, que essa já está muito vista. Ouvida.
      Uns rapazes, três deles altos, vestidos com fatos de treino, e um pequeno, de boné com a pala voltada para trás, serpenteiam por entre os carros parados nos semáforos. Ao passarem à frente do Mercedes; um deles, o maior, vira-se, assenta a mão aberta no capot e escancara a boca numa risada silenciosa. Depois, avançam os três em algazarra pelo passeio, aos pulos, a darem palmadas nas costas uns aos outros.
      O Gonçalo deixa de seguir o grupo de rapazes com o olhar. Encolhe os ombros.
      — Não gosto nada dos teus modos — diz, olhando para a filha pelo canto do olho. — Estás a ficar uma malcriada.
      — Tu — diz a Clara, enquanto se vê ao espelho pequeno da pala — é que nunca me deixas fazer nada. Eu já tenho catorze anos e tu tratas-me como um bebé. Já tenho quase quinze anos!
      — Diz antes que ainda só tens catorze anos.
      — Mas vou fazer quinze no domingo. E só te estou a pedir para me deixares ir à discoteca na véspera dos meus anos. A Mimi e a Lulu fartam-se de ir à discoteca.
      — Pois é — diz o Gonçalo. — Mas a Mimi já tem dezasseis anos e a Lulu dezassete.
      — Não vejo qual é a diferença, de catorze para dezasseis. De quinze para dezasseis. Qual é a diferença?
      — A diferença? — o Gonçalo fica em silêncio, a trincar o lábio. — É diferença de um ano. De dois. A diferença é que... Mas isso agora também não interessa. Olha, o que é que a ti te interessa se elas vão a discotecas ou não? Tu és tu; e a Mimi é a Mimi.
      — E a Lulu é a Lulu.
      Nos últimos meses, desde que casou, o Gonçalo aprendeu um novo tique. Fecha os lábios e semicerra os olhos; parece um sorriso, mas transforma-se numa careta de dor, como se alguém o tivesse pisado.
      — Não te faças de engraçada, Clara — diz, e passa a mão pelo rosto, a desfazer a expressão dolorida. — E, seja como for, tu é que és minha filha. Lá o que a Lulu ou a Mimi fazem...
      — Mas és padrasto delas, é como se fosses pai.
      —... ou o que a tua amiga Inês faz não me diz respeito. Agora tu... [...]»

(Ana Saldanha, Um Espelho Só Meu, pp. 13-17)



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