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18-09-2002
Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra de Mia Couto. Uma fascinante e fantástica ficção
Leitor atento, excepto para o que exige a urgência de uma notícia, saboreador de frases, das palavras, uma a uma, recebi o novo romance de Mia Couto e li-o em duas noites de dois dias de trabalho. Com enorme prazer. Começa-se e não se pode parar. Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra é uma fascinante e fantástica ficção. Fascinante e fantástica em vários sentidos: a) Por se tratar de um notável romance, no qual porventura atinge seu ponto cimeiro uma obra que já é a mais importante obra romanesca da literatura moçambicana e das mais significativas do nosso idioma; 2) Por a escrita de Mia, extremamente colorida, dúctil, inventiva, cheia de belas imagens e metáforas, alcançar aqui talvez a sua mais alta expressão; 3) Por o fantástico, o mágico, que tem a ver com África mas não só, desempenhar um papel decisivo na estrutura e no clima da narrativa.
Nas páginas do romance está um país, uma sociedade, um mundo em mudança, com a crítica implícita ao que um pouco por toda a parte, e em particular em Moçambique, vem assassinando o sonho. O sonho, no caso concreto, de quem lutou pela independência, por uma sociedade livre e justa. (Vem assassinando o sonho e às vezes não só ele basta ver, ainda em Moçambique, o trágico caso de Carlos Cardoso, amigo do escritor). E, sobretudo, nestas páginas do exímio contador de estórias que é o autor de Terra Sonâmbula, está uma história e muitas histórias dentro da história, com constantes achados, 'surpresas', situações incríveis, aparentes desvios de rumo, prosa à beira do verso, absolutamente, repito, fascinantes.
Mesmo no que respeita a um aspecto da escrita de Mia a que, em meu juízo, por vezes se dá excessivo relevo em si mesmo, o da inovação ou criação vocabular, o romance é único e tem achados admiráveis. Fica-se com a sensação certa de que era impossível dizer-se o que se diz de outra maneira. Um simples exemplo: o romance arranca da morte do patriarca de uma família numerosa e da assunção do seu lugar pelo neto, neto que afinal não é neto e morto que afinal não se sabe se já morreu. E como não se sabe, na «incerteza de um epílogo», o médico só poderia «emitir uma incertidão de óbito». Viva o Mia e viva a língua portuguesa!(in José Carlos Vasconcelos, JL, 18-09-2002, p.21)
Sobre o(a) autor(a)
Mia Couto
Sobre a obra
Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra
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