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20-07-2008
E se o tempo preguiçasse?

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem (conhece este trava-línguas?) e o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem (confusão?). No livro que aqui se traz, o Tempo é protagonista e parece ter muito tempo. Tanto que ora se esquece de trabalhar ora escolhe por quem há-de passar.
Além de preguiça, o Tempo tem medo do escuro e à noite só actua nos quartos com luz de presença. Imagine-se então uma família em que apenas o mais novo cresce. O pequeno começa a deixar de o ser, enquanto os manos se mantêm onde estavam (no tempo) e como estavam (no tamanho). E é ver os irmãos mais velhos (ou melhor, os que nasceram antes) a pedir ao mais novo que lhes alcance os brinquedos das prateleiras de cima. Um pouco mais adiante na história, será também ele a dizer aos pais para lavarem os dentes antes de deitar e a ter de os obrigar a ir para a cama.
Imaginação e talento estão presentes numa história contada com bom ritmo e bastante ironia. A começar por um pequeno dicionário, aliás, como Rita Taborda Duarte lhe chama, um "minidicioneiro", onde se dá a conhecer conceitos como: Os Velhos Tempos ("... Dizem sempre o pior dos novos tempos. São naturalmente chatos, antiquados e rezingões. Piores que eles só os tempos mortos"); Os Novos Tempos ("são os tempos mais modernos, que acham que estão sempre bem mais à frente do que os velhos tempos. Às vezes fazem asneira, mas muitas vezes são eles que fazem o mundo avançar...") e vários outros "tempos".
Quer as entradas do "minidicioneiro" quer a história propriamente dita são acompanhadas por ilustrações cujo grau de abstracção que se impõe não impede a clara e imediata leitura por parte do leitor. Luís Henriques consegue, através da imagem, ampliar o sentido da narrativa, proporcionando vários níveis de reflexão/interpretação.
Mesmo para os que nasceram há pouco tempo.
O destino do Tempo preguiçoso e trapalhão desta história foi o de deixar o mundo real, cheio de regras e de ritmos a cumprir. Vive agora no meio dos livros, onde tudo vale – Uma página pode conter um século e a outra durar um segundo. E só passa por onde quer. (Revista Pública, in Jornal Público, por Rita Pimenta)

Sobre o(a) autor(a) Rita Taborda Duarte ; Luís Henriques
Sobre a obra O Tempo Canário e o Mário ao Contrário

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